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Super Flumina

Liberae sunt enim nostrae cogitationes - Cícero (Mil. 29 - 79) . Um blog de Rui Oliveira superflumina@sapo.pt

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A tradução nos jornais

Que todos os dias quando abrimos os jornais encontramos erros de tradução mais ou menos clamorosos (bem, a discussão sobre o que é um erro de tradução pode ser algo verdadeiramente complexa, mas aqui até sou vou falar daqueles que são evidentes) é quase um facto da vida. Se tivessemos que apontar esse tipo de erros, não teríamos tempo para mais nada. Por isso, não foi com surpresa que vi este texto no Linguagista sobre um artigo no Público on-line (publicado em 06.09) que levou a uma carta de uma leitora ao provedor do leitor do jornal, criticando a tradução e sintaxe desse mesmo artigo, não faltando mesmo um malfadado "eventually" traduzido por "eventualmente" (como acontece com demasiada frequência).

 

O texto do Helder Guégués despertou-me curiosidade para visitar o blog do provedor do leitor do Público, José Queirós, para ver a resposta e a justificação da Direcção do jornal e, francamente, não fiquei espantado.

 

Diz então Bárbara Reis, directora do Público:

 

Usa­mos tra­du­to­res pro­fis­si­o­nais para gran­des tex­tos, publi­ca­dos na revista, por exem­plo
No dia-a-dia já tive­mos secre­tá­rias com essa for­ma­ção e espe­ci­a­li­dade, mas tal não é ver­dade há uns anos, dada a gra­dual dimi­nui­ção da redac­ção.
Os jor­na­lis­tas usam fon­tes em várias lín­guas. Alguns dos erros que nota­mos não tem a ver com igno­rân­cia, mas com dis­trac­ção. Ou seja, alguém que passa o dia a ler ou a falar em inglês, quando vai escre­ver não se aper­cebe das tra­du­ções lite­rais que está a fazer. É um pro­blema que só se con­se­gue resol­ver refor­çando o número de desks e edi­to­res online, inca­pa­zes de lerem com aten­ção todos os 150 tex­tos que publi­ca­mos por dia.
Esta­mos neste momento a equa­ci­o­nar esse mesmo reforço.

 

O Público até usa tradutores, mas para grandes textos na revista. Antes tinhas secretárias com essa formação e especialidade. Alto! Secretárias que tinham a formação e especialização de tradução. Então, eram tradutoras, não secretárias! Ou eram secretárias que faziam traduções nas horas vagas ou entre outros afazeres? Que tipo de formação e especialização? É que ser tradutor não é uma questão de ter ou não um curso de tradução. É um bocadinho mais do que isso.

 

Mas o terceiro parágrafo é verdadeiramente espantoso. Os jornalistas não erram por ignorânica, mas por distracção: "alguém que passa o dia a ler ou a falar em inglês, quando vai escrever não se apercebe das traduções literais que está a fazer". Sinceramente, nem acredito que leio isto. Por um lado, talvez isso aconteça pelo facto de eles não serem tradutores. Um tradutor passa o dia a ler em língua estrangeira para escrever um texto em português (neste caso) e não é por isso que faz traduções literais.

 

Em segundo lugar é bastante grave que um jornalista não tenha a sensibilidade para perceber que o texto que escreveu não está em bom português ou num português minimamente escorreito. É que alguns decalques sintácticos soam tão mal que o jornalista deveria perceber que haveria algo de errado com o seu texto (por ex. a frase que a leitora dá como exemplo de má construção "e há estirpes muito resistentes que a medicina actual tem menos e menos ferramentas para lutar contra" e que no texto actualmente on line já foi retocada com "cada vez menos" a substituir "menos e menos").

 

O que me parece é que muito jornalismo actual é feito à base de traduções e que nem toda a gente é competente para as fazer. O controlo é inexistente (e não só para as notícias que são traduzidas). E que, também, não basta saber línguas para as saber fazer.

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