Novamente os exames
Li ontem no Jornal de Notícias que a média dos exames nacionais respeitante à segunda fase foram baixas, com 18 disciplinas co médias inferiores a 10 valores. Não posso dizer que estou espantado pois os alunos que concorrem a esta 2.ª fase ou reprovaram na 1.ª ou então, por variados motivos, não foram à 1.ª indo agora à 2.ª. Como é costume, os resultados da 2.ª fase ficam sempre abaixo dos da 1.ª.Mas o que me interessou mais na notícia foi a classificação dos exames de Português A e B, respectivamente, 9,5 e 8,9 valores. Olhando para as provas, compreende-se porquê, a de Português A era muitíssimo acessível. Aliás, já na 1.ª fase, as provas não tinham sido complicadas embora o "reverendo Bonifácio" da prova de Português A tenha sido um bom motivo para gargalhadas entre os professores correctores e para todos os que conhecem "Os Maias".
Mas o que me espantou na notícia foi este trecho:
...Edviges Antunes Ferreira, dirigente da Associação de Professores de Português, está "optimista". Isto porque "os novos programas já estão preparados para melhorar as competências da escrita, e os primeiros resultados aparecerão dentro de três anos".
Bom, este saiu-me um optimista de primeira. A simples mudança de programa iria modificar as competências de escrita dos alunos? Bastaria o secundário para fazer isso? E o ensino básico?
Devo francamente confessar que não conheço os novos programas a fundo. Tenho-os aqui em casa, mas não os li totalmente, porque entretanto deixei de dar aulas. Quanto aos anteriores, conheço-os bem, Português A e B, leccionei-os e conheço as suas debilidades, uma das quais, sobretudo para Português B, era ter literatura a mais e o modo como essa literatura era dada e os alunos a aprendiam (isto é, mal...).
Se no 12.º ano, ao dar o poema da Mensagem "D. Dinis" perguntasse a um aluno, na análise do poema, o porquê do primeiro verso "Na noite escreve um seu Cantar de Amigo", tinha grande hipóteses desse mesmo aluno não se lembrar já que no 10.º ano tinha dado a Poesia Galego-Portuguesa e que D. Dinis até era um, senão o mais, importante poeta dessa poesia. Isto não é historinha, aconteceu-me com alunos reais.
Agora, o novo programa até pode ser muito bom (duvido, deixarei essas considerações para mais tarde, quando o tiver lido), mas muito teria que mudar na concepção de aulas dadas pelos professores para melhorarem as competências escritas dos seu alunos. E não é a isso a que eles estão habituados... Aliás, isso sente-se, depois, na Universidade, em que os alunos têm dificuldade em exporem claramente os assuntos durante as frequências ou nos seus trabalhos (já li dissertações de mestrado com erros de português, sintaxe defeituosa, raciocínios interrompidos, etc...).
Apesar de eu ter dito que os anteriores programas tinham literatura a mais, não quero dizer com isto que a literatura deve ser arrumada. Bem pelo contrário, mas a escolha deveria ser mais criteriosa e deixar mais tempo para a produção e compreensão de textos. Aliás, com os meus alunos insisti muito, mesmo com estes programas, que o Português era como a matemática, não bastava saber a teoria, tinha que se praticar a escrtia pois, por exemplo, em Português B, era uma pena perderem pontos no texto expositivo-argumentativo por uma estrutura e explanação incorrecta ou, então, no resumo, não fazerem um resumo positivo, por não identificarem as ideias principais e não seguirem as regras gerais de produção de um resumo. Isto treina-se, não tem nada que ver com jeito ou inspiração. Muitos deles, que estão agora na universidade, agradecem-me por eu lhes ter exigido isso.
Voltarei com mais tempo a este assunto.