Bicentenário da tragédia da ponte das barcas
Mal correu a voz de que os franceses tinham forçado algumas baterias, logo se espalhou o pânico, naturalmente, numas forças que não tinham qualquer disciplina a moderar o desânimo e o instinto de conservação da vida: foi a debandada geral, tendo-se dirigido parte desta gente para a ponte do Douro a caminho de Vila Nova de Gaia.
Chegou aquela mole informe de gente à ponte das barcas quando ali já tinham começado aretirar, por ordem do Brigadeiro Vaz Parreira as pranchas do pontão central a fim de cortar a ponte; mas à vista da gente que avançava a operação foi suspensa, ficando contudo a passagem limitada na largura de algumas pranchas e deste modo muito mais estreita que a largura total do tabuleiro da ponte por onde acorria a multidão.
Foi esta a desgraçada causa da morte de muitas centenas de populares, pois empurrados pelos que vinham atrás, eram atiados ao boqeuirão que as pranchas retiradas deixavam em aberto; apenas se salvaram uma pequena parte das pessoas que se fizeram à ponte.
Para cúmulo da tragédia, uma bateria instalada na Serra do Pilar e que estava apontada para a defesa da ponte, abriu desordenadamente fogo, matando muitos da multidão, e aumentando assim a confusão entre os que procuravam fugir.
O rio Douro, correndo indiferente no seu curso milenário, ia arrastando a caminho da Barra, centenas de cadáveres ou magotes de desgraçados que se debatiam nas vascas da agonia.
(Carlos Azeredo, Aqui Não Passaram! O Erro fatal de Napoleão, Porto; Civilização, 2005, p. 158.)