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Super Flumina

Liberae sunt enim nostrae cogitationes - Cícero (Mil. 29 - 79) . Um blog de Rui Oliveira superflumina@sapo.pt

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O "dia da Raça" (II)

No tempo da ditadura salazarista (eu não chamo a esse tempo, sob o qual vivi a minha infância e início de adolescência - e do qual não tenho saudades-, "fascismo" porque se há uma coisa que não existiu em Portugal foi "fascismo", mas sim uma ditadura autoritária) festejava-se um "Dia da Raça".

 

Que raça era esta que se festejava. Era uma espécie de "raça ariana" à moda portuguesa? Encontrei uma resposta aqui, por Conceição Meireles da FLUP:


Que ‘raça’ é comemorada a 10 de Junho?


“Quando se tenta exaltar o dia da Raça, é a raça do povo português entendida de uma forma geral, global”. O que está em causa é a “originalidade” e “a capacidade dos portugueses”, explica Conceição Meireles. “O Estado Novo sempre quis sublinhar a originalidade do povo português face aos outros povos europeus. Por alguma razão este pequeno povo tinha uma História de séculos; era dos Estados mais antigos da Europa e tinha um Império colonial que quase nenhum outro país europeu possuía”. Esta era a “raça do povo português que tinha de ser “exaltada a todo o custo”, era a “raça no sentido do dia do povo português”. De acordo com Conceição Meireles, o conceito de raça no Estado Novo deve ser entendido no sentido em que significa “um povo diferente, aparentemente frágil, mas com valores que lhe permitiram grandes realizações”. No dia da Raça e de Camões “exaltava-se a nação e o império, a metrópole e as colónias”.

 

Estamos muito longe de qualquer tentativa científica de definição de "raça". Aliás, quem ler a "Arte de Ser Português" de Teixeira de Pascoaes poderá ler, por exemplo:

 

RAÇA


Desejo agora referir-me, sobre tudo, ao sentido que anima, n'este livro, a palavra raça.

Empregámo-la como significando um certo numero de qualidades electivas, (n'um sentido superior) proprias dum Povo, organisado em Patria, isto é, independente, sob o ponto de vista politico e moral.

Taes qualidades são de natureza animal e espiritual, resultantes do meio fisico (paisagem) e da herança etnica, historica, juridica, literaria, artistica, religiosa e mesmo economia.

Herança, n'este caso, significa tambem tradição.

Uma raça tem assim os caracteres d'um sêr vivo, e como tal a devemos considerar.

 

[Teixeira de Pascoaes (1920). Arte de Ser Português, Renascença Portuguesa:Porto, 2.ª edição]

 

Esta ideia de "originalidade" do povo português estava disseminada na cultura portuguesa há já bastante tempo. O Estado Novo aproveitou-se dela para dar novos significados e justificar com a história o que estava a acontecer na época.

 

Agora ver no lapsus linguae cavaquista mais do que isso ou, ainda mais, sinistras  simpatias com ideais racistas ou similares é perfeitamente estúpido.

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