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Super Flumina

Liberae sunt enim nostrae cogitationes - Cícero (Mil. 29 - 79) . Um blog de Rui Oliveira superflumina@sapo.pt

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Dos louvores da língua portuguesa

O Pedro Sette Câmara, meu co-blogger no  Insurgente, publicou um interessante artigo de poesia no seu blog com o título Sete anos de pastor, a propósito do conhecido poema de Camões com esse título, com alguns comentários interessantes. Mas o que, neste momento, me leva a escrever esta entrada são as suas considerações sobre a pronúncia do português, actualmente tão diferente dos dois lados do Atlântico.

Que o português europeu contemporâneo se tornou uma língua em que as vogais átonas quase não se ouvem não é novidade para ninguém. Por isso é que os espanhóis não nos compreendem. Pura e simplesmente eles não ouvem parte daquilo que dizemos.

Mas, isto é uma evolução recente, pois a acreditarmos nas descrições que lemos em louvor da língua portuguesa nos escritores do séc. XVI e XVII , as coisas nem sempre terão sido assim. Aliás como  é referido por Maria Helena Mira Mateus, na  Gramática da Língua Portuguesa  (Caminho, 2003 - 5.ª ed., p. 28):

Foi só no período do português moderno que o -e- (e por vezes o -i-) em posição pretónica e postónica foram progressivamente substituídos por uma vogal reduzida que hoje é habitualmente suprimida no registo coloquial do português europeu. Estas vogais eram, desde o início da língua, bastante mais audíveis do que são hoje em Portugal (semelhantes, portante, às vogais átonas do português brasileiro e do português falado em África).

Vejamos agora o louvor que é feito à língua portuguesa na obra mais conhecida de Francisco Rodrigues Lobo (1573/4-1621), Corte na Aldeia, pela primeira vez publicado em Lisboa, 1619 (utilizo a ed. da Presença, 1991), na pág. 68, logo no Diálogo I, pela voz de uma das suas personagens, o Doutor Lívio:

E verdadeiramente que não tenho a nossa língua por grosseira, nem por bons os argumentos com que alguns querem provar que é essa. Antes é branda para deleitar, grave para engrandecer, eficaz para mover, doce para pronunciar, breve para resolver e acomodada às matérias mais importantes da prática e escritura. Para falar é engraçada com um modo senhoril, para cantar é suave com um certo sentimento que favorece a música, para pregar é sustanciosa, com ua gravidade que autoriza as razões e as sentenças, para escrever cartas nem tem infinita cópia que dane, nem brevidade estéril que a limite, para histórias nem é tão florida que se derrame, nem tão seca que busque o favor das alheias. A pronunciação não obriga a ferir o céu da boca com aspereza, nem a arrancar as palavras com veemência do gargalo. Escreve-se da maneira que se lê, e assim se fala. Tem de todas as línguas o melhor: a pronunciação da latina, a origem da grega, a familiaridade da castelhana, a brandura da francesa, a elegância da italiana. Tem mais adajos e sentenças que todas as vulgares, em fé de sua antiguidade. E se à língua hebreia, pola honestidade das palavras, chamaram santa, certo que não sei eu outra que tanto fuja de palavras claras em matéria descomposta quanto a nossa. E, para que diga tudo, só um mal tem: e é que, polo pouco que lhe querem seus naturais, a trazem mais remendada que capa de pedinte.

Este conhecido louvor da língua portuguesa, não anormal para a época (há antecedentes), entre os exageros com que retrata a nossa língua, diz alguma coisa quanto a pronúncia que nos diz logo que algo seria diferente do que é actualmente.  Por exemplo, a "doçura" não é uma característica que possamos atribuir ao português europeu contemporâneo.

Há também neste passo outros pormenores interessantes, mas ficarão para outra oportunidade.

 

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