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Quinta-feira, 17 de Março de 2005
Camilo de Castelo Branco (1825-1890)
Passaram ontem 180 anos do nascimento de Camilo de Castelo Branco. Por impossibilidade de tempo, devido a trabalho, não pude colocar ontem uma entrada a assinalar a efeméride, acto totalmente justificado pela importtância de Camilo na história da literatura portuguesa do séc. XIX.

Por isso, embora com um dia de atraso, publiquei no meu outro blog, Humanae Litterae uma pequena nota de comemoração da efeméride.
publicado por Rui Oliveira às 10:35
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Terça-feira, 15 de Março de 2005
Os idos de Março
Segundo nos diz a História, foi a 15 de Março de 44 a.C., que C. Iulius Caesar, mais conhecido em português como Gaio Júlio César, foi assassinado no Senado Romano. Grande general e político de Roma, mas também um bom escritor, o seu De bello gallico (A guerra da Gália) é um clássico da literatura latina, tinha uma ambição de poder desmedida que chocou com aqueles que ainda sonhavam com uma República oligárquica.

Cícero no seu tratado De Re publica, escrito em 51 a.C., tinha escrito, a propósito do sistema político, o seguinte:

Passados então esses duzentos e quarenta anos de realeza (ou um pouco mais, com os interregnos), de depois da expulsão de Tarquínio, foi tal o ódio que o povo romano tomou ao título de rei, quanto a saudade que sentira depois da morte, ou melhor, da partida de Rómulo. De tal modo que, tal como então não poderia estar privado de um rei, após a expulsão de Tarquínio, não podia ouvir o nome de rei.
(A República II.30.52, trad. de Maria Helena da Rocha Pereira)

De facto, para os partidários das república a ideia de um só homem governar, à sua discrição, a cidade de Roma era absolutamente repugnável. Mas César, cabeça de fila dos popolares, no fim da guerra civil, no fim da guerra civil que o opôs ao Senado, cujo exército tinha como general Pompeu, tinha acumulado tanto poder que faziam dele o chefe incontestado de Roma, com um poder até aí pouco visto (apesar de, entre 82-79 a.C., Sula ter exercido o poder de um modo monárquico), mas mantendo a fachada republicana do Estado. Mas depois das convulsões da década anterior e da guerra civil acabada pouco antes, fez com que alguns republicanos, chefiados por Bruto e Cássio, decidissem avançar. Assim chegamos aos idos de Março.

A história já a sabemos. Na sequência da guerra, o exército senatorial é derrotado e os seus principais chefes mortos. Do triunvirato formado (Octávio, Marco António, Lépido), depois do afastamento de Lépido, Octávio e António disputam o Império e, com a vitória de Octávio, morre definitivamente a República. Começa o principado, embora mantendo a ficção do estado republicano.

Bem podiam os republicanos pensar que o povo romano nunca mais aceitaria um rei, mas, nem uma geração depois, Roma tinha, mesmo que não usasse o nome, um governante quase absoluto. O curso da História nem sempre é linear.

Talvez por isso, tivessem razão os Antigos que tinham uma concepção circular do tempo, muito bem expresso pelo Eclesiastes (ou Qohélet):

Aquilo que foi é aquilo que será;
aquilo que foi feito, há-de voltar a fazer-se:
E nada há de novo debaixo do Sol!
Se de alguma coisa alguém diz:
«Eis aí algo de novo!»,
ela já existia nas eras que nos precederam.
Eclesiastes, 1, 9-10 (Nova Bíblia dos Capuchinhos)

Por isso, na Antiguidade o tempo era marcado pela ascensão e quedas dos impérios, havendo sempre a ideia de um eterno retorno. O cristianismo, ou num sentido mais largo, a herança judaico-cristã, vem instaurar uma linearidade na concepção do tempo, com a espera da vinda do Messias. Com a entrada da Idade Moderna, a concepção de tempo ganha, definitivamente, no Ocidente, as características de linearidade e progresso, entre outras, mesmo se secularizando a História da Salvação judeo-cristã.

Esta concepção linear talvez nos impeça há vezes de ver que as regressões no, digamos assim, progresso, da humanidade, são possíveis.

Deste modo, talvez seja útil olhar para História, para compreendermos mais facilmente de que não devemos dar por adquiridas as liberdades e democracia que temos actualmente. Ao contrário de que pensavam tanto os positivistas como marxistas, a história da Humanidade não é um marcha inexorável em relação ao progresso. A História ainda nos pode pregar muitas partidas.
publicado por Rui Oliveira às 23:06
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Segunda-feira, 14 de Março de 2005
A Lei é para os dois lados...
Como toda a gente sabe, a França tem uma lei de separação da Igreja do Estado faz este ano, precisamente, 100 anos. Uma lei que atingiria em primeiro grau a Igreja Católica, mas que, por um lado, devido à resistência passiva (e por vezes activa) dos católicos, por uma implementação que embora dolorosa não foi demasiado rigorosa (a Igreja Católica está associada numa única associação cultual e não em milhares de associações cultuais correspondentes às antigas paróquias como queria a lei), acabou por beneficiar a Igreja por livrou-a dos encargos com a manutenção das igrejas e edifícios construídos antes de 1905, ao mesmo tempo que mantinha o usufruto de quase todos eles.

Fazendo aqui um pequeno parênteses, a nossa lei de separação da igreja e do estado de 1911, em muitos pontos decalcada da lei francesa, foi aplicada (ou tentou ser) com muito menos flexibilidade e, como seria de esperar, acabou por dar maus resultados. A oposição que os jacobinos republicanos fizeram à Igreja foi mais um dos muitos motivos que levou à queda da 1.ª República. E, um presidente como António José de Almeida, por exemplo, sentiu bem que isso era um problema e deu alguns cautelosos passos de aproximação à Igreja. Mas o mal estava feito. Fechemos os parênteses.

No entanto, em França, outras confissões, mesmos cristãs, estão associadas nas tais associações cultuais. Acontece, agora, que três igrejas evangélicas de Montreuil, apoiadas pela Fédération protestante de France e a Fédération évangélique de France, vão processar um autarca que terá invadido e arrancado uns cartazes nos locais de culto. Com base em quê? Na lei de 1905 que diz, no seu artigo 32.º, reprimir "ceux qui auront empêché, retardé ou interrompu les exercices d'un culte par des troubles ou désordres causés dans le local servant à ces exercices".

De facto há muita gente a reclamar pela separação da Igreja e do Estado e depois querem se meter na vida das igrejas.
publicado por Rui Oliveira às 09:26
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Domingo, 13 de Março de 2005
Feminismo e ciência: incompatíveis?
Já por várias vezes pensei abordar aqui o caso de Larry Summers, presidente de Harvard, e dos problemas em que se meteu por ter considerado, com base em estudos científicos, que as diferenças entre os cérebros masculinos e femininos poderia justificar a disparidade de entre homens e mulheres em áreas como as ciências ou a matemática.

Foi quanto bastou para o feminismo radical, dentro da sua própria universidade, lhe caísse em cima e o obrigasse, lamentavelmente, a escrever uma carta de retractação.

Mas, se eu não tive tempo para escrever sobre o assunto, sempre posso recomendar esta excelente entrada n' O Insurgente.

De facto, parece que feminismo e ciência são incompatíveis.

Post scriptum. Para além deste caso, ler também este outro caso desta vez passado na Suécia. Deixem-me só transcrever o início desta entrada no Secular Blasphemy:

Columnist Carl Hamilton in Aftonbladet writes about a very troubling conflict between science and politics in Sweden. My translation:

The government bans opinions on men's and women's brains

In one respect Sweden's government is unique in the world. It has a definite opinion about a scientific controversy: whether women's and man's brains are different, or not. The first time i realised that the government had involved itself in neurobiology, was when gender equality minister [! - ed] Jens Orback in a speech about sexual deviations and living with horses [!!! - ed], affirmed:

- The government considers female and male as social constructions, that means gender patterns are created by upbringing, culture, economical conditions, power structures and political ideology.

Apart from taking a position on this scientific question, the government has deiced to side with the most extreme researchers: gene theoreticians who for ideological reasons state that biology can not have any saying in explaining why male and female behaviour differs.

Aconselho a leitura do resto.

publicado por Rui Oliveira às 10:25
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Sexta-feira, 11 de Março de 2005
Porto, 0 - Nacional, 4
Já não me lembrava de ver o Porto perder por 4 em casa. A última vez de que me lembro disso, foi algures nos anos 70, em que o Porto foi derrotado por 0-4 pelo Belenenses no Estádio das Antas.

Agora, cerca de 30 anos depois, voltou a acontecer. Se há alguém culpado da situação, não é certamente o Couceiro, nem sequer os jogadores. É obviamente a administração da SAD, com Pinto da Costa à cabeça, que não soube gerir o pós-Mourinho e destruiu, alegremente, a equipa.

Enfim, e apesar de tudo ainda podemos vencer o Campeonato...

Post-scriptum. O resultado com o Belenenses foi na época 1974/75.
publicado por Rui Oliveira às 23:49
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A islamização da escola republicana em França
Para não estar a escrever as mesmas coisas duas vezes seguidas, ler a minha entrada com o título acima n' O Insurgente.
publicado por Rui Oliveira às 23:05
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Quinta-feira, 10 de Março de 2005
Organizem-se
Ao que parece o ex e futuro primeiro-ministro do Líbano vai voltar a formar governo. Mas não é da situação libanesa que eu quero falar. É de uma coisa que por vezes irrita. Se já estiveram atentos, o nome do senhor tanto aparece escrito Karami como Karame. Porquê?

A explicação é simples. Se a fonte da notícia portuguesa veio em língua inglesa, então é Karami. Se veio em francês, então é Karame (os franceses até escrevem Karamé). Não há ninguém em Portugal, nos media, que conheça arabistas que possam fazerm a transcrição correcta para português?

Senão continuamos a ver também coisas como Al-Jazeera ou Al-Jazira e muitos outras coisas. Caramba, até parece que no séc. XV havia mais gente a saber árabe em Portugal do que agora.
publicado por Rui Oliveira às 14:07
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Quarta-feira, 9 de Março de 2005
A ler...
André Glucksmann sobre o assassinato de Maskhadov na Chechénia por parte dos russos.
publicado por Rui Oliveira às 18:48
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Cadeados e não só!
Parece que os alunos da Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa fecharam-na a cadeado até que sejam atendidas as pretensões inscritas no caderno reivindicativo.

Sinceramente não sei o que eles estão a reinvindicar, pois nas televisões o que vi foi um estudante a protestar contra a impossibilidade dos alunos repetentes assistirem às aulas práticas (assunto em que não posso dar a minha opinião) e ainda contra a redução do calendário de exames de 1 mês para quinze dias, fazendo com que, entre alguns exames, haja apenas 48 horas de intervalo.

Não conheço as dificuldades do curso de Direito, nem as práticas avaliativas que lá se fazem, mas, assim para quem está no exterior, 48 horas de intervalo entre exames não parece nada mal. Já não me lembro quantos dias de intervalos tinha para as minhas frequências na FLUP, mas, lembro-me, perfeitamente que, cheguei a fazer duas frequências no mesmo dia e sem possibilidade de reclamar, pois como pertenciam a anos diferentes não tinham que respeitar intervalos mínimos entre frequências.

Mesmo nessa altura havia colegas que se queixavam que as frequências estavam próximas em demasia. É claro que para quem não estuda durante o ano e tenta empinar tudo na época de frequências, mesmo em Letras (há muita gente que pensa que é mais fácil), a vida, nesta época, fica difícil. Em Direito uma atitude também não deve ajudar. E como eu tenho filhos de amigos meus a andarem em Direito (mais concretamente na Católica do Porto) que tiveram, neste 1.º ano, uma atitude desta, não me admirou nada o olhar esgazeado com que andaram em Janeiro.

É claro que há muita coisa errada na avaliação universitária, inclusive com épocas de avaliação demasiado longas e repetidas (de um modo geral). Mas apresentar o caso de 48 horas de intervalo entre exames como um dos casos principais, parece exagero. Na vida profissional vão ter que fazer mais em muito menos tempo.

Na minha actividade, nas faculdades quando se fala de traduzir, fala-se em projecto de tradução, reflecte-se sobre o processo de tradução, etc., etc., etc., isto é, parece um trabalho reflectido em que há tempo para fazer escolhas (linguísticas e não-linguísticas), que se pode desenvolver com calma, com clientes que compreendem bem o que é o trabalho de tradução.

Nada mais errado. Muitos clientes pensam que traduzir é pouco mais do que uma transcodificação, isto é, o que é dito numa língua tem equivalentes totais noutra língua. Não se apercebem dos aspectos extra-linguísticos como, por exemplo, o facto de se fazer uma tradução jurídica de português para francês chocar com códigos jurídicos que não são idênticos., com procedimentos que não têm paralelo, etc. Por outro lado, trabalha-se frequentemente a todo o vapor, com prazos de entrega absolutamente louco. Apesar disso, o cliente exige a mesma qualidade, não lhes importando se o tradutor teve muito ou pouco tempo para fazer a tradução.

Tudo isto não se aprende nos bancos da faculdade. Tem que se aprender a lidar com a pressão, mas os nossos alunos, mesmo na faculdade, nem sempre estão habilitados a lidar com ela.
publicado por Rui Oliveira às 18:00
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Terça-feira, 8 de Março de 2005
Desenvolvimentos no Kosovo
Aos poucos o TPI para a ex-Jugoslávia está a chegar a outros possíveis criminosos de guerra que não apenas sérvios ou, em menor grau, croatas. Há pouco tempo foi um general bósnio muçulmano, agora é o primeiro-ministro do Kosovo, pelo que fez enquanto líder do UÇK.

Realmente é preciso ver o que se passou, pois se a NATO interveio para acabar com uma limpeza étnica, que se veio depois a provar sobre-inflancionada, o que se passou depois de 1999, foi uma verdadeira limpeza étnica feita pelos muçulmanos contra todas as outras minorias, sérvios à cabeça.

É que, neste caso, os conflito não era entre sérvios-maus e kosovares albaneses-bons, como agora muita gente vai começando a ver. Por outro lado, a intervenção da NATO nada resolveu e a situação eterniza-se.

Mas, para muita gente que pensa que a única intervenção sem aval da ONU má foi a invasão do Iraque. Será que a diferença está entre uma ser feita pelo Clinton e a outra pelo Bush? Claro que não, mas parece.

Post scriptum. O modo como esta notícia sobre o primeiro-ministro do Kosovo foi dada nas televisões que vi (CNN e SIC-N) é, no mínimo, risível e mal-informada. Ao falar do motivo pelo qual ele era um herói para os kosovares albaneses, ambas referiram o facto de ele ter comando a guerrilha do UÇK contra os ocupantes sérvios. Ocupantes sérvios? Desde quando. O Kosovo é o berço da Sérvia. O facto dos sérvios serem minoritários no Kosovo têm que ver com acidentes da história e não com qualquer ocupação. Se, naquela terra, alguém foi ocupante esse alguém foi o Império Otomano.
publicado por Rui Oliveira às 16:46
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