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Super Flumina

Liberae sunt enim nostrae cogitationes - Cícero (Mil. 29 - 79) . Um blog de Rui Oliveira superflumina@sapo.pt

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Liberae sunt enim nostrae cogitationes - Cícero (Mil. 29 - 79) . Um blog de Rui Oliveira superflumina@sapo.pt

Arrivederci

Del Neri não teve tempo para aquecer o lugar. Ainda bem! Como portista, a minha confiança nele era pouco menos que zero.

Só espero que a SAD portista acerte agora num treinador de jeito.

Ortografia, língua e outras coisas mais

Sigo com interesse a polémica entre Francisco José Viegas e Pedro Ornelas sobre ortografia e outras questões (por exemplo, o ensino de literatura no básico e secundário). Os argumentos aduzidos por ambos são bastante interessantes e deveriam fazer reflectir muita gente com responsabilidade que, todavia, continua a assobiar para o ar como tudo estivesse no melhor dos mundos.

A discussão sobre a ortografia fez-me logo lembrar o "Prólogo" de Teixeira de Vasconcelos no seu livro "O prato de arroz doce".

António Augusto Teixeira de Vasconcelos (Porto, 1816 - Paris, 1878) é um escritor do séc. XIX, participou na revolta da Junta do Porto em Outubro de 1846, redactor da Convenção de Gramido de 29 de Junho de 1947 que pôs fim à revolta de Maria da Fonte e escreve um livro sobre esse acontecimento. No prólogo desse livro (Prólogo datado de 20 de Setembro de 1862), escreve o seguinte sobre a ortografia (ortografia do trecho actualizada pelo editor):

   Da ortografia peça o leitor contas a quem melhor lhe parecer. Eu não lhe posso dar o que não possuo, nem há. Nós somos o único povo da Europa que admite anarquia nesta parte da gramática. Se aos portugueses apraz permanecer em tão descuidoso atraso, com que direito me hei-de insurgir contra a vontade geral? Assim a querem, assim a tenham.
   Em havendo lei, prometo cumpri-la segundo nela se contiver. Enquanto a não há, estou reduzido a escrever ora de um modo, ora de outro, conforme mo pede a vontade ou o capricho, e a deixar ao revisor da imprensa faculdade absoluta de adoptar a ortografia que quiser, sem exceptuar a do autor de Santarenaida. Quero entenebrecer mais o caos, a ver se ao cabo nascerá dele ordem e luz.
(Teixeira de Vasconcelos, O prato de arroz doce, Porto: Lello & Irmão, 1981, p. 13-14.)

A queixa de Teixeira de Vasconcelos é pertinente, pois a anarquia e o caos na escrita nunca fizeram bem a nenhuma língua.

É importante escrevermos correctamente. Na escola, deveria ser induzida nos alunos a preocupação de escrever ortograficamente correcto (que não é o mesmo que escrever bem). Todos damos erros ortográficos, mas devemos ter a preocupação em não os darmos. Não é uma obsessão pela norma ou pela procura do erro, é antes a procura de um rigor que nos levará também a ser rigorosos em outras coisas que fazemos (afinal temos direito a que no rodapé da TVI não apareça coisas como "prédios em perigo eminente" de queda).

Outra questão levantada, a da literatura nas aulas de Português do ensino básico e secundário, é também bastante interessante. No Ensino Secundário, que é o que conheço melhor (antes da reforma), havia literatura a mais, mas também um modo errado de dar o programa. O FJV refere Os Maias. O que é que os alunos retêm de Os Maias? Os chamados "episódios". E mais nada. Mas mesmo os "episódios" são mal assimilados porque os alunos nada conhecem da sociedade do séc. XIX que Eça critica e, por isso, limitam-se (na maioria dos casos) a repetirem o que os professores disseram. Se os professores não tiverem falado de algum aspecto, então se sai no exame (a questão do "reverendo Bonifácio" por exemplo em Português A na 1.ª fase) temos disparate livre, provando à saciedade que não leram o romance integralmente (para além do aspecto de compreensão do texto por parte dos alunos também ficar seriamente afectado, pois duas linhas abaixo estava mencionado "gato" com todas as letras). Mas, a literatura é indispensável, qualquer que seja a posterior formação do aluno, para a aquisição de um bom domínio da língua.

Isso leva-me aos novos programas de Português do Secundário. Ainda só fiz uma leitura transversal do programa. Se abandona a linguística de frase e parece abraçar uma espécie de linguística de texto, parece-me também que há por ali uma certa superficialidade. Farta-se de falar em "tipos de textos", mas não o definem. Não vi os manuais, mas tenho a impressão que haverá ali uma confusão de conceitos.

Na bibliografia do prgrama especificamente relacionada com "tipos de textos" mencionam apenas um trabalho de Jean-Michel Adam de 1985. O autor, desde então, já escreveu vários livros (não apenas artigos) em que a sua posição evolui consideravelmente. Por outro lado, falta a bibliografia de autores de língua alemã (que, apesar de tudo, tem muitos artigos e livros escritos em inglês e, por isso, mais acessíveis) de linguística de texto, autores imprescindíveis para fundamentar um programa deste género.

Mas, relativamente aos programas, preciso de os ler melhor, para tirar alguma conclusão. Gostaria também de saber como é que foi este ano o 10.º ano para alunos e professores. Temo que muitos destes últimos não estejam preparados para tão grande mudança. Também me vou tentar informar sobre isto.

Há outros aspectos, como por exemplo, o Dicionário da Academia em que eu não daria tantos louvores como Pedro Ornelas o faz. Não é tanto pela escolha de alguma das palavras (lembram-se do "bué"?), mas mais por questões que têm que ver com as definições propostas e por análise comparativa que fiz com outros dicionários nacionais e estrangeiros. Também fica para outra oportunidade que o artigo já vai longo.

Alcácer-Quibir

Há 426 anos, a 4 de Agosto de 1578, ocorreu a batalha de Alcácer-Quibir. Por isso, nada mais apropriado do que este poema de Pessoa:

D. Sebastião
Rei de Portugal


Louco, sim, louco, porque quis grandeza
Qual a Sorte a não dá.
Não coube em mim minha certeza;
Por isso onde o areal está
Ficou meu ser que houve, não o que há.

Minha loucura, outros que me a tomem
Com o que nela ia.
Sem a loucura que é o homem
Mais do que a besta sadia,
Cadáver adiado que procria?

(Fernando Pessoa, Mensagem, Lisboa: Edições Ática, 19.ª edição, 1997, p. 44)

Novamente os exames

Li ontem no Jornal de Notícias que a média dos exames nacionais respeitante à segunda fase foram baixas, com 18 disciplinas co médias inferiores a 10 valores. Não posso dizer que estou espantado pois os alunos que concorrem a esta 2.ª fase ou reprovaram na 1.ª ou então, por variados motivos, não foram à 1.ª indo agora à 2.ª. Como é costume, os resultados da 2.ª fase ficam sempre abaixo dos da 1.ª.

Mas o que me interessou mais na notícia foi a classificação dos exames de Português A e B, respectivamente, 9,5 e 8,9 valores. Olhando para as provas, compreende-se porquê, a de Português A era muitíssimo acessível. Aliás, já na 1.ª fase, as provas não tinham sido complicadas embora o "reverendo Bonifácio" da prova de Português A tenha sido um bom motivo para gargalhadas entre os professores correctores e para todos os que conhecem "Os Maias".

Mas o que me espantou na notícia foi este trecho:

...Edviges Antunes Ferreira, dirigente da Associação de Professores de Português, está "optimista". Isto porque "os novos programas já estão preparados para melhorar as competências da escrita, e os primeiros resultados aparecerão dentro de três anos".

Bom, este saiu-me um optimista de primeira. A simples mudança de programa iria modificar as competências de escrita dos alunos? Bastaria o secundário para fazer isso? E o ensino básico?

Devo francamente confessar que não conheço os novos programas a fundo. Tenho-os aqui em casa, mas não os li totalmente, porque entretanto deixei de dar aulas. Quanto aos anteriores, conheço-os bem, Português A e B, leccionei-os e conheço as suas debilidades, uma das quais, sobretudo para Português B, era ter literatura a mais e o modo como essa literatura era dada e os alunos a aprendiam (isto é, mal...).

Se no 12.º ano, ao dar o poema da Mensagem "D. Dinis" perguntasse a um aluno, na análise do poema, o porquê do primeiro verso "Na noite escreve um seu Cantar de Amigo", tinha grande hipóteses desse mesmo aluno não se lembrar já que no 10.º ano tinha dado a Poesia Galego-Portuguesa e que D. Dinis até era um, senão o mais, importante poeta dessa poesia. Isto não é historinha, aconteceu-me com alunos reais.

Agora, o novo programa até pode ser muito bom (duvido, deixarei essas considerações para mais tarde, quando o tiver lido), mas muito teria que mudar na concepção de aulas dadas pelos professores para melhorarem as competências escritas dos seu alunos. E não é a isso a que eles estão habituados... Aliás, isso sente-se, depois, na Universidade, em que os alunos têm dificuldade em exporem claramente os assuntos durante as frequências ou nos seus trabalhos (já li dissertações de mestrado com erros de português, sintaxe defeituosa, raciocínios interrompidos, etc...).

Apesar de eu ter dito que os anteriores programas tinham literatura a mais, não quero dizer com isto que a literatura deve ser arrumada. Bem pelo contrário, mas a escolha deveria ser mais criteriosa e deixar mais tempo para a produção e compreensão de textos. Aliás, com os meus alunos insisti muito, mesmo com estes programas, que o Português era como a matemática, não bastava saber a teoria, tinha que se praticar a escrtia pois, por exemplo, em Português B, era uma pena perderem pontos no texto expositivo-argumentativo por uma estrutura e explanação incorrecta ou, então, no resumo, não fazerem um resumo positivo, por não identificarem as ideias principais e não seguirem as regras gerais de produção de um resumo. Isto treina-se, não tem nada que ver com jeito ou inspiração. Muitos deles, que estão agora na universidade, agradecem-me por eu lhes ter exigido isso.

Voltarei com mais tempo a este assunto.

Espanholices

Quando se trata de Gibraltar, os espanhóis são muito sensíveis. Deve ser algo que lhes atinge gravemente o orgulho. Por isso, não admira que a visita do ministro britânico da defesa Hoon levante algum mal-estar no governo espanhol.

O ministro da defesa britânico está em Gibraltar para comemorar os 300 anos da conquista, de surpresa, do Rochedo por uma força anglo-holandesa comandada por Georg von Hesse-Darmstadt, em 1704, durante a Guerra da Sucessão espanhola, em nome do arquiduque Carlos de Habsburgo, um dos candidatos ao tromo espanhol.

Como o Tratado de Utreque de 1713 reconheceu como rei de Espanha o outro candidato, Filipe de Anjou (um Bourbon, neto de Luís XIV), que tomou o nome de Filipe V, a Grã-Bretanha ficou com Gibraltar para si. Em 1727 e em 1779/1782, os espanhóis tentaram a reconquista pela força, mas falharam.

O que me espantem é que os espanhóis fiquem tão incomodados com este assunto de Gibraltar, mas quando reclamam a sua devolução, esquecem-se de assuntos como, por exemplo, Ceuta (conquistada em 22 de Agosto de 1415 pelos portugueses, mas sob soberania espanhola oficial desde 1668) ou, já agora, Olivença (não que eu reclame a devolução de Olivença) que foi conquistada em 1801, durante a Guerra das Laranjas contra Portugal (e o nosso país nunca reconheceu a soberania espanhola sobre Olivença).

Espanha, se quiser resolver o assunto de Gibraltar, vai ter que olhar o assunto de modo global. Estas histerias dos governantes espanhóis (algumas declarações foram muito pouco diplomáticas) não levam a lado nenhum.

Agosto

Habitualmente mês de férias. Mas este blog não fechará para férias... poderá é andar um pouco mais longe das notícias do dia. Na medida do possível, irei tentar manter uma certa regularidade.

Afinal, habituei-me a ter que escrever algo todos os dias. Parece que isto de blogs vicia um bocado...

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