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Domingo, 27 de Fevereiro de 2005
Óscares, cinema e anti-americanismo II
O anti-americanismo de Georges Duhamel tem uma longa tradição francesa atrás de si, como bem no-lo demonstra Philippe Rogger no seu L'ennemi américain. Généalogie de l'antiaméricanisme français (2001, Paris: Editios du Seuil). Thomas Wieder na sua recensão a este livro de Roger diz o seguinte:

Des Scènes de la vie future de Georges Duhamel (1930) au Cancer américain de Robert Aron et Arnaud Dandieu (1931), les titres des principaux ouvrages de l'époque sont clairs. Les Etats-Unis incarnent désormais la pire menace non seulement pour la France, mais pour l'homme en général. Le plus intéressant est de voir combien des intellectuels que tout sépare a priori en viennent à prononcer un même réquisitoire. Qu'ils soient humanistes (Georges Duhamel), personnalistes (Emmanuel Mounier), existentialistes (Simone de Beauvoir) ou gauchistes de Mai 68, tous s'accordent à dénoncer le caractère dictatorial de la prétendue démocratie américaine et la mécanisation d'une vie dont la dimension spirituelle est réduite à néant.

De notar que em Scènes de la vie future autor viaja pelos EUA e anota as suas impressões sobre o país e a pessoa, impressões estas que são largamente negativas. Esta apreciação sobre o cinema enquadra-se nesse contexto.

Mas, independentemente, do anti-americanismo de Duhamel, neste seu texto, aliás muito bem escrito, se há objecções sobre o cinema com as quais não posso de modo algum estar de acordo, por serem redutoras de mais, outras há que mantêm, totalmente a sua actualidade. Neste caso a importância desmesurada que lhe é dada, sobretudo às suas estrelas e as opiniões que elas expressam por tudo e por nada, não importa quanto descabeladas sejam. Não sei porquê, mas parece-me um sintoma de provincianismo, sobretudo da forma como Pessoa o definiu.

Todo este foclore à volta dos Óscares, mas também, de uma outra maneira, todo o aparato reverencial à volta, por exemplo, dos festivais de Cannes, Berlim ou Veneza, onde, por exemplo, em Cannes, um falso documentário como "Fahrenheit 9/11" levou a Palma de Ouro, são perfeitamente disparatados.

O cinema pode ser um entretenimento, como cultura, os dois não são incompatíveis. Quando se faz cinema como português, das capelinhas para as capelinhas (às expensas de todos nós), obviamente não podemos falar de indústria. Quando falamos de indústria, também este termo não pode ter sentido pejorativo, embora, reconheça, de Hollywood, nos últimos anos, saíram poucos filmes de que eu tenha verdadeiramente gostado.

Mas tal como, as obras de arte literárias não crescem como cogumelos, também as cinematográficas não abundam. Voltarei ao assunto.

publicado por Rui Oliveira às 14:53
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