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Quinta-feira, 23 de Dezembro de 2004
Inverno
Estamos já no Inverno. Boa altura para relembrar aqui um dos poetas portugueses que mais aprecio: Camilo Pessanha. Devo dizer que Pessanha, juntamente com Cesário Verde e Fernando Pessoa são, para mim, os mais importantes poetas portugueses dos últimos 150 anos. Não quer com isto dizer que, para além desta trindade poética, não tenha havido bons poetas em Portugal.

Claro que tivemos e continuamos a ter, desde Torga, passando por Sophia, Cesariny ou Hélder (não me falem de Eugénio de Andrade que, sei lá porquê, nunca engracei muito com a sua poesia). Outros poetas estão a aparecer, mas como não os tenho lido muito (o tempo não dá para tudo, não é...) abstenho-me de os mencionar, esperando por uma outra altura.

Mas, voltando aos nossos poetas, parece-me que, e não entrando em precisões literárias, o cume que eles atingiram não voltou, ainda, a ser atingido.

E que poetas estranhos (em vários sentidos) eles são. Algo os une, como por exemplo, o facto de pouco terem publicado (organizadamente em livro) em vida. Cesário apenas publicou em publicações periódicos, sendo O livro de Cesário Verde (1887) um livro póstumo editado pelo seu amigo Silva Pinto. Pessanha para além da sua Clepsydra de 1920, apenas publicou um conjunto significativo de poemas na revista Centauro de 1916 em vida. Pessoa publicou, em português, um único livro, A Mensagem, em 1934.

Voltarei a falar deste três poetas, agora quero apenas deixar o díptico Paisagens de Inverno (utilizo a edição de Paulo Franchetti, 1995, da Relógio d'Água). De notar que, nesta edição, a ortografia não foi actualizada.


PAISAGENS DE INVERNO

I

(A Alberto Osório de Castro)

Ó meu coração, torna para traz.
Onde vaes a correr desatinado?
Meus olhos incendidos que o peccado
Queimou! Volvei, longas noites de paz.

Vergam da neve os olmos dos caminhos.
A cinza arrefeceu sobre o brazido.
Noites da serra, o casebre transido...
Scismae, meus olhos, como uns velhinhos.

Extinctas primaveras, evocae-as.
Já vae florir o pomar das maceiras.
Hemos de enfeitar os chapeus de maias.

Socegae, esfriae, olhos febris...
Hemos de ir a cantar nas derradeiras
Ladainhas... Doces vozes senis.


II

(A Abel Annibal de Azevedo)

Passou o outomno já, já torna o frio...
- Outomno de seu riso maguado.
Algido Inverno! Obliquo o sol, gelado...
- O sol, e as aguas limpidas do rio.

Aguas claras do rio! Aguas do rio,
Fugindo sob o meu olhar cançado,
Para onde me levaes meu vão cuidado?
Aonde vaes, meu coração vazio?

Ficae, cabellos d'ella, fluctuando,
E, debaixo das aguas fugidias,
Os seus olhos abertos e scismando...

Onde ides a correr, melancolias?
- E, refractadas, longamente ondeando,
As suas mãos translucidas e frias...


publicado por Rui Oliveira às 11:24
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1 comentário:
De FSantos a 23 de Dezembro de 2004 às 18:52
Caro Rui, no meu blogue tem um poema de Torga alusivo ao Natal.
Feliz Natal para si e os seus.
Um abraço.

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