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Super Flumina

Liberae sunt enim nostrae cogitationes - Cícero (Mil. 29 - 79) . Um blog de Rui Oliveira superflumina@sapo.pt

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Pessoa anti-americano

Num texto intitulado "O provincianismo português", datado de 1928, Fernando Pessoa tenta definir o provincianismo português (mesmo daqueles que se julgavam cosmopolitas) da seguinte forma:

O provincianismo consiste em pertencer a uma civilização sem tomar parte no desenvolvimento superior dela - em segui-la pois mimeticamente, com uma subordinação inconsciente e feliz.
A síndroma provinciana compreende, pelo menos, três sintomas flagrantes: o entusiasmo e admiração pelos grandes meios e pelas grandes cidades; o entusiasmo e admiração pelo progresso e pela modernidade; e, na esfera mental superior, a incpacidade da ironia.

Depois, vai caracterizando cada um destes três aspectos e quando chega ao segundo escreve (destaques meus):

O amor ao progresso é a outra forma do mesmo característico provinciano. Os civilizados criam o progresso, criam a moda, criam a modernidade; por isso lhes não atribuem importância de maior. Ninguém atribui importância ao que produz. Quem não produz é que admira a produção. Diga-se incindentalmente: é esta uma das explicações do socialismo. Se alguma tendência têm os criadores de civilização, é a de não repararem bem na importância do que criam. O Infante D. Henrique com ser o mais sistemático de todos os criadores de civilização, não viu contudo que prodígio estava criando - toda a civilização transoceânica moderna, embora com consequências abomináveis, como a existência dos Estados Unidos.

Não conheço suficientemente todos os textos em prosa publicados por Pessoa, nem sequer a sua vida e obra (afinal de contas não sou um especialista em Pessoa), para pode explicar este tipo de afirmação. Mas, provavelmente, embora por razões diferentes, haja uma cultura europeia que tem a tendência de menorizar, culturalmente, os Estados Unidos.

Georges Duhamel (1884-1966), em "Scènes de la vie future", em 1930, escreveu o seguinte sobre o cinema:

C'est un divertissement d'ilotes, un passe-temps d'illettrés de créatures misérables, ahuries par leur besogne et leurs soucis. C’est, savamment empoisonnée, la nourriture d'une multitude que les Puissances de Moloch ont jugée, condamnée et qu'elles achèvent d'avilir.

Un spectacle qui ne demande aucun effort, qui ne suppose aucune suite dans les idées, nesoulève aucunequestion, n'aborde sérieusement aucun problème, n'allume aucune passion, n'éveille au fond des cœurs aucunelumière, n'excite aucune espérance, sinon celle, ridicule, d'être un jour " star " à Los Angeles.

(...)

J'affirme qu'un peuple soumis pendant un demi-siècle au régime actuel des cinémas américains s'achemine vers la pire décadence. J'affirme qu'un peuple hébété par des plaisirs fugitifs, épidermiques, obtenus sans le moindre effort intellectuel, j'affirme qu'un tel peuple se trouvera, quelque jour, incapable de mener à bien une œuvre de longue haleine et de s'élever, si peu que ce soit, par l'énergie de la pensée. J'entends bien que l'on m'objectera les grandes entreprises de l'Amérique, les gros bateaux, les grands buildings. Non !Un building s'élève de deux ou trois étages par semaine. Il a fallu vingt ans à Wagner pour construire la Tétralogie, une vie à Littré pour édifier son dictionnaire.

O anti-americanismo não é coisa de agora, nem sequer nasceu com a guerra do Vietname. É coisa que provavelmente antecede a própria criação dos Estados Unidos da América. A leitura do livro de Philippe Roger (2002), L'ennemi américain. Généalogie de l'antiaméricanisme français, Paris, Editions du Seuil, pode ser bastante elucidativo para uma perspectiva histórica deste fenómeno.

Agora, quanto ao possível anti-americanismo de Fernando Pessoa, bem, vou ter que me informar mais.


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