A "crise" e consequências
Quando houve a crise provocada pela saída de Durão Barroso, quando comentei esse facto fi-lo também na qualidade militante de base do PSD. É também nessa qualidade, para que os meus leitores não fiquem com quaisquer dúvidas (até porque eu não acredito em "objectividade" ou "imparcialidade" absolutas), que vou comentar a actual "crise marcelista".Em primeiro lugar, vou dizer o óbvio, penso eu, isto é, Gomes da Silva falou demais e já não deveria estar no governo por esta hora. Se é verdade o que disse a Inês Serra Lopes de que ele foi recebido como herói na reunião do Conselho de Ministro desta semana, o caso parece grave. Não está em causa o ministro exprimir alguma repulsa pelos comentários de Marcelo (nem sequer me posso pronunciar sobre eles, porque já não o via há alguns meses), mas sim a estapafúrida invocação da Alta Autoridade. De qualquer modo, Gomes da Silva poderia ter exprimido a sua indignação em termos muito diferentes.
Por outro lado, não é preciso ser muito esperto para pensar que Marcelo aproveitou a questão para sair, ainda por cima vitimizado, sob aplauso de toda a esquerda e de algum PSD (quem será este PSD? os barões, aqueles que os jornalistas conhecem? A mim ninguém me perguntou nada).
De qualquer modo, o governo não sai bem na fotografia, tal como o professor Marcelo. Houve exageros e a criação de uma crise artificial que não tem razão de existir. O país tem coisas mais importantes em que pensar. E, obviamente, a liberdade de expressão não está em causa. É perfeitamente louco pensar isso. Esta crise tomou proporções que obviamente não justifica. É claro que a oposição tenta tirar dividendos disto, levando aos ombros alguém que ela destesta solenemente. Mas cabe ao governo não dar tiros no pé.
E tiros no pé já este governo deu alguns, não precisava mais deste. Como militante, gostava que o governo mostrasse mais consistência e não se preocupasse tanto com o que dizem dele. Santana Lopes terá que pôr o governo sobre os carris, não se envolver em polemicazinhas e começar a governar a sério. Nestes dois meses de governos houve muito ruído, mas pouca acção. Até ao final do ano, para além do Orçamento para 2005, tem que mostar mais serviço. A ver vamos...
Não queria, no entanto, deixar de dizer que a crise tomou esta proporção porque há gente dentro do PSD que, aproveitando a ocasião, lançou achas para a fogueira. E porquê? É fácil ver que Santana desperta muitas invejas e há gente que pensa ser muita mais qualificada do que ele e que, por isso pensa que é uma injustiça ser Santana o primeiro-ministro e não um deles. Eu estou longe de ser um santanista, aliás, eu tento pensar apenas pela minha cabeça, pelo que não pertenço a qualquer tendência, nem sequer ao nível da Secção onde estou inscrito. Visto que não concordava com a hipótese de eleições antecipadas e Santana foi o indigitado, não tive dúvidas em concordar com a solução do Presidente. Mas, isso não quer dizer que não se critique o governo quando penso ser de criticar. Também não quer dizer que o Congresso deva ser de unanimismo em apoio de Santana. O último Congresso foi pouco mais do que lamentável, pois a discussão foi de baixíssimo interesse. Não sei se está a aberta a corrida para a presidência do PSD, sei que tudo deve ser feito para que o próximo Congresso seja aberto à discussão de ideias e que as lógicas aparelhísticas (que são impossíveis de vencer, como ainda recentemente se viu no PS) não abafem o debate, pois mesmo dentro dos partidos ele é necessário. Para isso estou sempre pronto, senão mais vale não votar sequer nas eleições de delegados, quanto mais ir lá pôr os pés.