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Segunda-feira, 10 de Dezembro de 2007
Ainda a tradução indirecta
No seguimento dos meus artigos anteriores (sobre a tradução do Kalevala e de As Mil e Uma Noites), queria ainda falar um pouco da tradução indirecta.

Se discordo  de uma edição do Kalevala em português traduzido não do finlandês mas de edição inglesa é porque penso que, no século XXI e para uma língua de um país membro da União Europeia, não se justifica uma tradução indirecta, coisa que não se passava no passado e em que a tradução indirecta foi importante para a divulgação científica ou mesmo para a fundação de literaturas nacionais.

No passado, a tradução indirecta foi de uma importância enorme, pois através de uma língua intermédia, conseguia-se ter acesso a textos de uma língua praticamente desconhecida em determinado país.

Assim, por exemplo, nos dias de glória de Roma, todos os romanos cultos sabiam grego. Com o declínio de Roma o domínio da língua grega quase desapareceu na Europa Ocidental. Por isso,  o contacto com alguns textos fundamentais da Antiguidade grega , na Europa Ocidental durante quase toda a Idade Média,  só foi possível através das traduções feitas do grego para o árabe, que depois foi traduzido para latim e difundidas por toda a Europa. Só com a queda de Constantinopla em 1453 e com a consequente chegada de refugiados bizantinos é que o conhecimento do grego se alargou na Europa Ocidental.

Os árabes, no início da civilização muçulmana foram grandes entusiastas da tradução, não são a partir do grego, mas também do persa e do siríaco, em que a tradução indirecta também foi utilizada. Assim no-lo diz Taïeb Baccouche in La traduction dans la tradition arabe (destaques meus):

4) Mais l’activité de traduction n’a connu un essor remarquable qu’avec la dynastie des Abbasides à Baghdad soutenue par les Persans, en particulier sous le Califat d’Al Ma’mûn qui créa Beyt al-Hikma (= maison de la sagesse) et recruta des traducteurs dans les domaines scientifiques et philosophiques. On dit qu’il récompensait le traducteur par le pesant d’or de son livre. De véritables familles de traducteurs ont vu le jour.

La logique grecque fut arabisée à partir du persan puis du syriaque avant d’être
traduite directement du grec.

La traduction est devenue ainsi un véritable métier pratiqué individuellement et même en groupe. L’un des plus célèbres traducteurs de l’époque, Hunayn Ibn Ishâq, était surnommé le « maître des traducteurs de l’Islam ». Son école domina le ixe s. ; on y traduisait surtout du grec.

5) On peut donc dire que la traduction est passée par deux grandes périodes : une période de traduction indirecte, où le persan et le syriaque servaient d’intermédiaires, puis une période où le sanscrit et le grec étaient traduits directement en arabe.

L’intérêt portait essentiellement sur les mathématiques, l’astronomie, la médecine et la philosophie, où Aristote était considéré le premier maître et son commentateur arabe Farâbi, le second maître.

Ou seja, os árabes precisaram primeiro de traduções indirectas, de civilizações que estavam há mais tempo em contacto com o grego (e o sânscrito, pois também literatura e cultura hindu foi traduzida pelos árabes), até dominarem estas línguas e poderem fazer traduções directas.

No entanto, como diz este mesmo autor, esta actividade tradutória dos árabes era herdeira de uma

vieille tradition judéochrétienne. De véritables écoles de traduction existaient déjà. On pourrait en citer l’école nestorienne syriaque de Nizip qui traduisait surtout du grec, l’école Jacobite syriaque kinnisrin et l’école païenne des Sabéens à Harrân (Hellénopolis). Les liens entre le grec et le syriaque étaient étroits, car l’Église orientale utilisait les deux langues.

Como se sabe, muitas das traduções árabes acabaram por ser traduzidas para latim, tendo a Escola de Toledo, nos séculos XII e XIII, ficado famosa. pelas suas traduções para o latim e, depois, para o castelhano. O castelhano beneficiou imenso com esta actividade tradutória.

No caso da Bíblia, também temos que frequentemente quanto falamos de tradução da Bíblia estamos a falar da tradução da versão da Vulgata de São Jerónimo para as diversas línguas vulgares. A Bíblia é um dos livros mais traduzidos do mundo. Muitíssimas dessas traduções foram traduções indirectas que utilizaram o latim e também o grego (que embora sendo a língua original do Novo testamento, não o é relativamente ao Antigo Testamento). E muitas traduções tiveram importância para a fixação da língua para a qual foram feitas.

As literaturas sueca e noruega, por exemplo, também foram divulgadas em Portugal através de traduções indirectas. Segundo Tânia Campos no Resumo de "A recepção de Froken Julie de Strindberg em Portugal: um mosaico de textos":

Apesar de a tradução directa a partir do sueco começar já a ser uma realidade comum no nosso país, a verdade é que a tradução indirecta desempenhou sempre um papel fundamental para a recepção dos autores suecos e noruegueses em Portugal, levando os tradutores a servirem-se de textos intermediários ingleses, franceses, alemães, espanhóis e italianos, o que, na opinião de Vilas-Boas, «não deixa de afectar a qualidade dos textos».

Apesar de muitos estudiosos de tradução acreditarem que a tradução indirecta trai duplamente a obra de um autor, a verdade é que não podemos negar que o seu papel é determinante na recepção de autores de idiomas menos conhecidos em Portugal. Traduzido a partir de diversos idiomas intermediários, muitas vezes cruzados entre si, o produto final tende em encontrar-se mais próximo da língua intermédia do que da língua de partida: deixando, em muitos casos, apenas intacto um enredo.

A tradução indirecta foi, sem dúvida, um recurso útil e, em certas épocas, único, para obter conhecimento que de outro modo não seria possível. Mas, salvo raras excepções, penso que agora já não se justifica, sobretudo no caso de línguas europeias.
publicado por Rui Oliveira às 23:50
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4 comentários:
De Orlando Moreira a 18 de Dezembro de 2007 às 18:19
Suponho portanto que acredita que pelo sfacto de ambos Portugal e Finlândia serem membros da União Europeia o país subitamente se encheu de peritos em Finlandês...
Ou será que estarmos no século XXI significa que de repente Portugal ganhou milhares de poetas capazes de ler fluentemente todas as línguas do planeta?

As suas postas fazem-me pensar que defende ser preferível não ter uma versão de uma obra em português se essa versão não for vertida do original. Ao que parece os livreiros portugueses concordam, regra geral, consigo, porque a quantidade de obras de relevo na literatura mundial que não estão disponíveis em português é vergonhosamente enorme (devo-lhe lembrar que ainda há dois anos não havia em português uma só tradução das "Metamorfoses" de Ovídio , quando pelo menos no latim estamos bem fornecidos de especialistas?). Por outro lado, mesmo quando tradutores de uma determinada língua "exótica" existem, o seu número é necessariamente escasso, pelo que facilmente ocorre que todo o acesso em língua portuguesa a essa outra língua é afunilado na interpretação de uma só pessoa (até a língua inglesa, muito mais rica em falantes não se livrou disso, com o Russo e Constance Garnett). Uma forma de evitar isto é a tradução por interposta língua.

Francamente, não compreendo a indignação. É certo que a tradução indirecta torna o trabalho do tradutor mais complexo, e que introduz (mais um) possível factor de erro. Mas qualquer tradução é, em última análise, uma interpretação de um livro, nunca pode substituí-lo ou igualá-lo, e o erro ocasional é simplesmente inevitável. Entre os muitos factores que condicionam a qualidade de uma tradução, porquê isolar esse como o factor fundamental para avaliar a pertinência dessa adaptação?
Será garantidamente pior uma versão de uma obra em português baseada em traduções noutras línguas por especialistas que dedicaram toda a vida ao estudo da obra, que uma versão vertida do original por um tradutor cuja única habilidade é o conhecimento da língua?

No caso em particular da minha tradução, tenho a certeza de que quem ler o meu Kalevala há-de ficar a saber bem mais sobre a obra original do que sabia antes.

Justifica-se assim esta tradução, no século XXI, pelo número de pessoas que terão acesso à obra graças a ela. (Pode-se criticar obviamente a qualidade da tradução, e é certo que, se a qualidade da tradução for baixa, poderá fazer um desserviço à obra, mas não é esse o seu argumento.)

Por outro lado, como qualquer tradução nunca pode capturar por completo a obra original, e sobretudo no que diz respeito à poesia, existe, creio, por vezes, a necessidade de acesso a mais do que uma tradução da obra. Pelo que requerer uma tradução única e definitiva é pura e simplesmente limitar desnecessariamente o acesso à obra. E se tivermos em conta a escassez de tradutores para línguas menores, é provavelmente a isso, se tanto, que estará a condenar um número incontável de obras.

Para ter uma ideia do quão difícil é encontrar quem traduza de uma língua menor, mesmo se europeia, lembro-lhe que a tradução do Kalevala directamente do finlandês de que fala foi feita por encomenda expressa do Presidente da República. E sabe porquê? Porque traduzir poesia dá muito trabalho e, em termos monetários, pura e simplesmente não compensa. Pelo que encontrar um português (nação de pouca gente), especialista numa outra língua (de ainda menos gente), com aptidão para a poesia, que se disponha, por amor à camisola, a fazer uma tradução de envergadura, há-de ser quase tão impossível como o era há 100 anos atrás. Pelo que penso que a tradução indirecta não só se justifica ainda no século XXI, como é também absolutamente necessária.
De Rui Oliveira a 19 de Dezembro de 2007 às 15:19
Orlando, peço desculpa não lhe responder tao depressa quanto possível, mas estou no meio de um tradução que me está a dar algum trabalho extra. No entanto, prometo-lhe responder. No entanto, desculpe se lhe dei a ideia de estar indignado. Fiquei surpreendido, mas não indignado. E mais, apesar de tudo, admiro o trabalho que teve.

Todavia, espero, entre hoje e amnhã responder-lhe com mais calma às questões que põe no seu comentário.
De orlando moreira a 21 de Janeiro de 2008 às 10:33
O prometido é devido?
(já cá não vinha há muito ver se tinha cumprido... suponho que se esqueceu)
De Rui Oliveira a 21 de Janeiro de 2008 às 23:55
não me esqueci, mas uma tradução demasiado importante para ser negligenciada não me permitiu dar a resposta devida. Mas, dar-lhe-ei conta logo que tenha resposta pronta.

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