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Domingo, 9 de Dezembro de 2007
As mil e uma noites
Depois de ter feito o meu artigo sobre a Kalevala, lembrei-me de uma outra obra-prima da literatura mundial que circulou/circula em português através de traduções indirectas. Só que aqui o problema ainda é muito maior porque não há qualquer tipo de fixação de texto.

Por outro lado, as versões que serviam de base para o português, quase todas elas com base no texto de Anthoine Galland, que em razão da moral e bons costumes, aligeirou as passagens mais picantes do texto original árabe, tendo por outro lado acrescentado contos que originalmente não pertencia a esta colecção de contos.

Lembrei-me então que, quando jovem, o meu avô tinha entre os seus livros uma edição das Mil e uma noites publicada nos anos 40. Foi por essa edição que li as histórias das Mil e uma noites. Procurei-a na biblioteca do meu pai e encontrei-a.

"As mil e uma noites" - Edição especial baseada nos melhores textos orientais e coligida por Eduardo Dias, Lisboa, A. M. Teixeira & C.ª (Filhos), 1943-44

Não sei muito sobre este orientalista Eduardo Dias, apenas que nasceu em 1888 e morreu em 1949, tendo publicado outras traduções e livros sobre o Médio-Oriente. Naturalmente, por curiosidade, foi ver o que ele dizia na "Apresentação" no volume I. É um texto interessante, que releva uma abordagem à tradução que, no mundo ocidental, estava a dar as últimas. Espero voltar mais tarde a esta questão do modo de ver a tradução e algumas das faes por que passou (e passa).

Em primeiro lugar faz referência ao que se fez em Portugal até essa data com As mil e uma noites:

É notório que o modêlo usado entre nós foi sempre a tradução francesa de Galland, à qual o autor destas linhas fêz, não há muito, longa referência noutro livro. Essa tradução - deve repetir-se é, para a sua época (1704), um trabalho notável, e julgar-se-á das difilcudades que apresentou se tivermos em conta que foi a primeira conhecida na Europa e teve como base manuscritos dispersos e redigidos em vários dialectos árabes. Outros orientalistas francesas continuaram a obra de Galland, deixada incompleta, - e ainda outros se aproveitaram dela para exibirem o que descaradamente chamaram «novas traduções»...
Em Portugal, o saboroso livro tam caído em mãos desastradas. A partir da edição que surgiu em 1801 - «traduzida em francês por Mr. Galland e do francês em português pelo tradutor do Viajante Universal» - e que é de supor tenha sido a primeira, até outras mais recentes, os disparate acumulantes de maneira incrível.
Um só exemplo, para não maçar: Determinada passagem devia traduzir-se em francês (não tenho aqui a edição de Galland) mais ao menos assim: «... le sol était balayé et arrosé et l'air y était tempéré». Nas edições portuguesas que foi possível consultar, o «arrosé» aparece transformado em água de rosas; sendo esta, exactamente, a redacção do homem do Viajante Universal: «... corria um brando zéfiro e o calçado estava regado de água rosada»...

De facto a tradução de Galland teve uma influência enorme em quase todas as outras traduções europeias durante muito tempo. Portugal não foi excepção. Quanto às traduções risíveis, não será a primeira, nem a última

Depois, Eduardo Dias descreve a sua abordagrm à tradução que, muitos, sem dúvida, não hesitarão de classificar como eurocêntrica:

Na edição ora apresentada excluiui-se o processo de tradução literal, e fêz-se o que se pôde, tanto quanto o engenho auxiliou, para realçar o produto da imaginação criadora, mostrando assim, em forma acessível ao gôsto europeu, a mais atraente substância de As Mil e Uma Noites. Para isso, foram implacàvelmente diluidas as espêssas roupagens de que os escritores orientais abusam, por môr da natural disposição dos ouvientes, sempre em maior número que os leitores. [...]

Assim, tendo em vista a edição dos jesuitas de Beirute e a última do Cairo, e ainda a versão inglesa de Burton, além de outras menos importantes, diligenciou-se formar um texto leve e agradável, no estilo mais simples e adequado, mas sem alterar o sentido e o carácter da narrativa. Observe-se também que, dentro do mesmo critério, evitou-se a preocupação de Mardrus em sublinhar a vermelho certas passagens da edição de Bulaque. Esta edição é tida como impressionante e completa em conseqüencia do erotismo abjecto dos trechos incluídos na tradução de Mardrus, quadros êsses que o orientalista Galland e seus continuadores já tinham evidentemente desprezado como impróprios da civilização ocidental. [...]

Já agora, para oferecer tôdas as explicações, dir-se-á que nesta edição foram abreviadas as narrativas prolixas, e suprimidas as enfadonhas e frequüentes repetições, tal como as longas e insulsas tiradas poéticas - estas últimas fabricadas especialmente para satisfazer os ouvintes orientais, que deliram quando o narrador suspender um lance da história e grunhe umas lérias sem relação com o texto da prosa. Depois - já o disse Heine - versos traduzidos são, quási sempre, raios de lus empalhados.

Bem, o texto da "Apresentação" ainda continua, mas vou-me deter por aqui, pois é onde está o essencial sobre o processo de radução empreendido para a obra. Algumas observações. Há uma tentativa de adequação do texto ao leitor ocidental. O compilador não teve a mínima intenção de fazer a tradução integral da obra, mas apenas reformulá-la, adequando ao gosto e moralidade dos seus leitores.

Por isso, através da consulta de diversas fontes, a fim de fazer a selecção que melhor lhe convinha para os seus propósito, não hesita em eliminar ou atenuar os pormenores que ela considera como mais escabrosos e que, apesar de tudo, foram traduzidos, por exemplo, em inglês em plena época vitoriana.

Este processo de eliminar aquilo que se pensa pouco adequado para os leitores era habitual na época e nenhum autor, por mais consagrado que fosse, estava isento: Shakespeare, por exemplo, teve uma versão bowdlerized. Por exemplo, em 1789, Miguel do Couto Guerreiro traduziu Ovídio e o título do seu livro era "Cartas de Ovidio chamadas Heroides, expurgadas de toda a obscenidade, e traduzidas em Rima vulgar: ...". Já em 1783, José António da Mata, escreveu o seguinte no "Prólogo" à sua tradução das Odes de Horácio:

Ultimamente como Horácio foi tão libertino, que nunca escolheu lei ou religião alguma, [...] ainda que alguns com pouco fundamente o fazem Académico, outros Epicúreo, outros Pitagórico; contudo, observadas as suas palavras e costumes, dissera eu que segiui a lei da Natureza, abraçando todos os ditames do apetite e leviandade, por cujo motivo escreveu muitas obscenidades de que com todo o cuidado e diligência o expurguei nesta minha tradução, pelo perigo que nisto corre a inocência.

O mundo mundou muito nos últimos 60 anos e o modo de ver e fazer tradução de obras estrangeiras (neste caso, por acaso, estamos a falar de literatura) também se alterou, sendo que, os pressupostos que estiveram na base da compilação de Eduardo Dias de As Mil e Uma Noites não serão, actualmente, aceites pela maioria dos tradutores actuais.

Traduções como as das Mil e Uma Noites tiveram a sua importância, dando a conhecer, mesmo que com simplificações e omissões, uma literatura bastante desconhecida.
publicado por Rui Oliveira às 17:19
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3 comentários:
De vERA a 9 de Julho de 2008 às 14:22
Bom dia!

pesquisando sobre o assunto encontrei este artigo sobre o livro "1001 noite", eu tenho uma edição particular, traduzida por Dr. S.C. Madruse com versão portuguêsa de Clofildo de Roxanarah, intitulada: "As páginas proibidas das mil e umas noite", gostaria de saber mais sobre esta edição, você teria alguma informação sobre o assunto?
Agradeço sinceramente sua resposta.
Sds
Vera Winter
De Rui Oliveira a 10 de Julho de 2008 às 18:27
Vera,

Sinceramente, sobre essa versão, não tenho informações.
Mas, se tiver tempo, poderei tentar saber algo.

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