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Domingo, 5 de Agosto de 2007
Tradução
Não são muitas as vezes que a comunicação social fala de tradução (eu próprio poderia falar um pouco mais de tradução aqui, mas num período de grande intensidade de trabalho, como têm sido os últimos dois anos, raramente me apetece falar sobre o assunto), pelo que o Público de Domingo chamaou a minha atenção, porque na primeira página, em cima, tinha uma chamada para um artigo da Pública que dizia isto:

Tradutores
Quem são os que resistem à tirania do inglês

Logo o título me fazia um pouco de impressão. Isto de "tirania do inglês" é coisa que leva água no bico. Hei-de, com mais tempo voltar a esta questão da hegemonia do inglês que, para mim, é bastante mais aparente do que real (é claro que a realidade é diferenciada para os vários sectores das actividades humanas).

Na abertura do artigo de Bruno Horta, diz ainda o seguinte:

Marginais e resistentes
Em Portugal há línguas que só alguns dominam. E das quais não há dicionários ou gramáticas. Agora que decorre em Xangai, na China, o 18º Congresso Mundial da Federação Internacional de Tradutores - entre 4 e 7 de Agosto -, fomos à procura dos tradutores literários que resistem à tirania do inglês.

Bom, já ficamos a saber mais alguma coisa: 1.º há línguas que em Portugal não têm muita gente que as saiba; 2.º afinal não se vai falar de toda a tradução, mas apenas de tradução literária; 3º e por algum motivo, estes senhores que traduzem estas línguas raras resistem à tirania do inglês (porquê?)

No primeiro caso, o jornalista fala-nos de tradutores de línguas como o islandês, árabe, finlandês, húngaro e dinamarquês. Naturalmente, são línguas que não tem muitos tradutores em Portugal. Mas, muitas outras também as não têm. De qualquer modo, é sempre bom termos traduções directas da língua em questão. Mas este aspecto foi apenas para lançamento do artigo.

No segundo caso, a questão da tradução literária / não literária. A tradução literária pode ter, e tem, mais prestígio, mas no total de traduções efectuadas em todo o mundo, é uma parte muito, muito pequena. Mas, das vezes que reparei num artigo sobre tradução num meio de comunicação de massas, estes artigos falam-nos quase sempre de tradução literária. É mesmo uma questão de prestígio, não?

A dicotomia tradutor literário/ tradutor não literário é para mim algo que pertence ao passado, mas é algo que persiste na mente de muita gente.

Yves Gambier, na sua comunicação "Diversité des pratiques de traduction: Convergence des formations" (V seminário de Tradução Científica e Técnica em Língua Portuguesa, 18/19 de Novembro de 2002) disse:

En effet, la tradition en traduction est traversée depuis longtemps par des catégories binaires qui sont loin de refléter les réalités. Ainsi, on oppose traducteurs littéraires et traducteurs non-littéraires dans les associations professionnelles. Une telle coupure demeure aussi dans la perception et les représentations chez nombre de traducteurs - l'un pratiquant un art et l'autre un artisanat. [...] Elle traversa le capital symbolique de nos sociétés, la littérature étant encore légitimée, valorisée alors que les documents dits pragmatiques sont pratiques, efficaces... mais évanescents, à l'existence souvent courte. Enfin, elle marque fréquemment les manières de considérer les stratégies, le traducteur littéraire ayant le droit à la creátivité tandis que le traducteur non-littéraire n'aurait que l'obligation de se conformer aux usages linguistiques, culturels, rhétoriques de ses destinataires, aux exigences d'ordre réglementaire, normatif, matériel. On pourrait allonger la liste de ces différences supposées. Notons simplement ici que la masse des traduction quotidiennes continue trop souvent d'être définies par rapport à la littérature (non-littéraires)!

Mas, o facto é que, como diz Yves Gambier mais adiante, depois de constatar que estas dicotomias têm sido progressivamente postas em causas,

il suffit d'admettre que tout traducteur, quelle que soit la nature de l'original à traduire, suit des régularités dans son comportement, ses décisions, son sens des responsabilités.

Isto é, independentemente, da natureza do texto que traduzem, todos os tradutores têm procedimentos comuns, com depois as especificades próprias à natureza do texto a traduzir. Muito haveria sobre esta questão, mas o tempo é pouco.

Gostava é que, para a próxima vez, quando se referissem à tradução, vissem para além da literatura (afinal, provavelmente, 95% das traduções que se fazem no mundo são não literárias).

E, tal como a tradução literária, a tradução técnica, por exemplo, tem tanta ou mais importância para o futuro de uma língua como meio de comunicação válido em todos os aspectos. Uma língua que não desevolva uma linguagem técnica, pode ser uma língua condenada a prazo.

Por último, a "tirania do inglês". Da leitura do artigo, não se vê por que é que estes tradutores são resistentes marginais ou, sequer, como proporcionam essa resistência ao inglês. Por não traduzirem do inglês. É pouco.

Eu, que também traduzo do inglês, faço a grande maioria das minhas traduções a partir do francês. É a língua com que eu mais trabalho. Conheço muitos tradutores não literários que traduzem outras línguas que não o inglês. Na tradução não literária que souber língua como, por exemplo, o neerlandês. O italiano, o espanhol ou o alemão tem muita procura...

Num artigo de 2001sobre Claude Hagège e o seu livro Halte à la mort des langues, Eduardo Berti escreve:

Reconocido combatiente de la hegemonia del inglés, promotor del bilingüismo (por no decir del plurililgüismo), Hagège se niega a hablar de lenguas asesinas, como atendible contrafigura de las muertas; propone más bien la noción de "lenguas predadoras" y, al mismo tiempo, no reduce todo el análisis al indiscutible "imperialismo del inglés".        

        

"Contrariamente a lo que suele creerse, el peligro de las lenguas regionales y tribales del Africa no proviene hoy del inglés, ni de otros idiomas europeos, a diferencia del caso de Asia septentrional con el ruso, de América central y del Sur (español), de los Estados Unidos (inglés) o Australia (ingles). En Africa, si bien las lenguas europeas ejercieron una gran presión en tiempos coloniales, su uso se limita actualmente a las clases privilegiadas. El verdadero peligro proviene mayormente de las lenguas africanas más masivas y prestigiosas, cuya promoción suele coincidir con la de las estructuras del Estado".  

        

La creciente importancia del swahili como lengua oficial en varias naciones africanas (lengua promovida, precisamente, como cimento para la unidad nacional), va en desmedro de muchas lenguas minoritarias que, para sobrevivir, suelen teñirse de numerosos neologismos procedentes del swahili. Lo mismo ocurre con el peul en Africa central, con el haoussa en Nigeria y Camerún, con el oulof en Senegal. Estas lenguas nacionales son peligrosamente predadoras, según Hagège, porque aun cuando tienen iguales efectos que una lengua extranjera, "no despiertan la misma desconfianza".

E no fim do artigo, para aqueles que temem que o inglês seja a única língua falada no final do século:

En cuanto a los pronósitos de los apocalípticos para quienes en un siglo no se hablará otro idioma que el inglés, Hagège mantiene una posición cautelosa. "La situación hegemónica del inglés no es un fenómeno novedoso. Hace dos mil años, el latín condujo a la muerte de numerosas lenguas. como el galo, el tracio, el ilirio, el dacio o el celtíbero. Tras la victoria de César, la aristocracia gala se romanizó muy velozmente, abandonando su lengua. Hoy el inglés americano cumple el mismo rol que el latín. Son numerosas las familia de diferentes países del mundo que han adoptado el inglés como lengua de prestigio. Pero incluso si el inglés llegara a imponerse de manera absoluta, esto no quiere decir que terminaríamos todos hablando de igual modo una misma lengua. No debemos olvidar que el latín engendró el español, el italiano, el portugués o el francés. ¿Por qué no suponer que puede ocurrir lo mismo con el inglés?"

É fácil recorrermos a chavões como a "tirania do inglês" (mesmo quando depois nada se fala sobre o assunto) pois de facto, por exemplo, na comunicação científica, o inglês tornou-se a lingua em que todos escrevem para dar a conhecer as suas ideias. Mas, daí a pensar que todos vão ter que aprender inglês, vai uma grande distância.

E o facto de se traduzir de uma língua minoritária, também não nos qualifica automaticamente como grande combatentes à hegemonia do inglês.


publicado por Rui Oliveira às 23:24
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2 comentários:
De Anónimo a 6 de Agosto de 2007 às 11:14
Caro Rui Oliveira,
Gostaria de esclarecer a questão que o seu post suscita: a da "tirania do inglês" como um chavão para vender jornais.
Essa expressão não é usada gratuitamente no artigo.
Está lá um tradutor de francês e grego e inglês a falar disso:

"Manuel Resende, no artigo colectivo “Tradução: a panela, o cozido e o caldo”, publicado no número um de 2007 da revista literária A Phala: “Sinto-me inclinado a, quando posso, escolher obras cujos originais são em línguas estranhas, talvez por uma questão de resistência a este avassalador domínio da língua inglesa no mundo”.

E está lá um tradutor de inglês da APT (associação cuja maior parte dos sócios são tradutores técnicos) a falar disso:

"Apesar de, todos os dias, chegarem às lojas livros de autores dos quatro cantos do mundo, nem todos resultam de traduções directas. As editoras optam, muitas vezes, por traduções de traduções (tradução derivada), normalmente a partir do inglês, espanhol e francês. “É uma situação reprovável”, classifica Francisco Magalhães, tradutor e antigo presidente da Associação Portuguesa de Tradutores (APT)".

Bruno Horta
De Rui Oliveira a 6 de Agosto de 2007 às 14:49
Bruno,

isso está bem lá no texto, mas não no dos tradutores em questão.

Penso, mesmo que está questão de traduzir línguas estranhas ou exóticas (ou outro nome qualquer lhe queira dar) nada tem que ver (na maioria dos casos) com uma questão de resistência a um pretenso imperialismo do inglês.

Essa é uma perspectiva ideológica. E foi apenas nessa frase de Manuel Resende que o autor do artigo pegou para referir essa "tirania".

Há muito mais tradução do inglês para outras línguas? Há. E que culpa têm os falantes do inglês? Nenhuma.

No império romano, os romanos sabiam grego e era em grego que falavam em todo o império oriental, não em latim. Por quê? Porque depois de Alexandre o grego teve enorme expansão.

Acho perfeitamente ridículo pensar que traduzir línguas menos conhecidas tem que ser uma questão de resistência. Pôr a tónica nesse ponto, parece-me perfeitamente deslocado.

Quanto às traduções indirectas, bom, é um mal com temos frequentemente de convier, mas mais uma vez a culpa, provavelmente, é nossa. Eu sei que a maior parte os escritores latinos estão traduzidos, por exemplo, para inglês e francês, e, no caso, do inglês, muitos deles estão na Internet. Muitos autores latinos não têm meia dúzia de linhas traduzidas em Portugal, apesar de termos alguns bons latinistas. Mas não chegam...

Eu, quando sei a língua de partida de um texto, tento verificar se a tradução é directa ou se passou através de alguma outra língua. Mas, também sei, que muitas traduções, efectuadas nos finais do séc. XIX ou princípios do séc. XX, de autores alemães ou russos são realizadas a partir do francês.

Quanto aos textos técnicos, muitos fabricantes, originários de países não falantes de inglês, apresentam como original dos seus catálogos, fichas de características técnicas, etc. em inglês, mas isso tem razões económicas. Mas, poderei voltar a falar neste assunto, porque aqui sinto-me verdadeiramente à vontade.

Continua a pensar que é infundado pôr a tónica da tradução de línguas minoritárias em termos de contrariar a dominânica do inglês.

Dito isto, eu gosto imenso de línguas minoritárias tendo feito as minhas experiências com algumas (mas não a nível profissional - para já, vão ficar bem privadas). Mas faço-o por puro prazer. Não tenho qualquer obrigação em combater imperialismos linguísticos...

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