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Quarta-feira, 18 de Janeiro de 2006
Reescrever a história
Hoje de manhã, estava a ver a informação da RTP1 quando uma das notícias era sobre Cheng Ho (ou Zengh He), um grande marinheiro chinês do séc. XV, que teria descoberto a América numa das suas viagens, sendo a prova de tal facto um mapa chinês do séc. XVIII que seria, por sua vez, uma cópia de um mapa chinês de 1418. A peça televisiva afirmava que, provavelmente, seríamos, obrigados a reescrever a história e que afinal Cristovão Colombo não descobriu a América.

O modo como estava redigida a notícia irritou-me ligeiramente. Em primeiro lugar que Colombo não terá sido o primeiro navegador a chegar à América é coisa mais ou menos pacífica. Mas antes de explicar este ponto, há que clarificar algumas coisas.

Em primeiro lugar, Cheng Ho foi um grande navegador, como se pode ver pelas informações veículadas aqui, aqui ou aqui. Como se pode ver, os chineses terão chegado mesmo a dobrar o Cabo da Boa Esperança bem antes de Bartolomeu Dias (1487).

O livro "Os descobridores" (no original "The Discoverers") de Daniel J. Boorstin (a edição que tenho é do Círculo de Leitores, 1987), dedica o capítulo 25 (pp. 178-185) a este navegador. Mas este mesmo livro dedica o capítulo 28 (pp. 199-205) aos vikings e à sua possível instalação na Terra Nova (ver Leif Ericson) nos finais do séc. X - princípios do séc. XI. Mas esta instalação na Terra Nova falhou apenas passada uma geração. Na p. 204, Boorstin escreve (destaque meu):
Os Vikings foram provavelmente os primeiros colonos europeus na América, o que está longe de querer dizer que «descobriram» a América. A sua colonização através do oceano tempestuoso foi um acto de coragem física, e não de coragem espiritual. O que ele fizeram na América não modificou a visão do Mundo, nem deles próprios, nem de ninguém.
As navegações chinesas tinham um objectivo muito diferente das dos Vikings. A propósito delas, diz o mesmo Boorstin (p. 183):
As viagens tornaram-se uma instituição em si mesmas, com o fim de mostrar o esplendor e o poder da nova dinastia Ming. E demonstraram que as técnicas de persuasão ritualizadas e não violentas eram capazes de obter tributo de Estados distantes. Os Chineses não estabeleciam bases próprias permanentes nos Estados tributários; esperavam, em vez disso, transformar «todo o Mundo» em admirador involuntário do único centro de civilização.
Mas aquilo que se diz sobre os vikings (o não terem alterado a visão do mundo), também se pode aplicar aos chineses, isto é, independentemente de terem ou não terem descoberto a América, isso não alterou, de modo dramático, os acontecimentos futuros, ao contrário do que aconteceu com as navegações de portugueses e espanhóis. Ainda por cima a China, a partir de 1433, isolou-se do resto do mundo.

No entanto, ainda muita água vai correr por debaixo das pontes até se saber (se é que alguma vez se saberá) se os chineses navegaram ou não até à América. E muito menos se poderá dizer que a história terá que ser reescrita. Em primeiro lugar porque os vikings tomaram a precedência e isso é mais ou menos aceite. Em segundo lugar, independentemente de ter ou não chegado à América, Cheng Ho foi um grande navegador e a China era verdadeiramente uma potência marítima. No entanto, nada disso retira importância ao feito de Colombo. E, se for para ver quem chegou em primeiro lugar à América, claro está, que ela já estava habitada bem antes dos vikings lá terem chegado.

Post scriptum. Há um artigo no The Economist que termina do seguinte modo:
Showing that the world was first explored by Chinese rather than European seamen would be a major piece of historical revisionism. But there is more to history than that. It is no less interesting that the Chinese, having discovered the extent of the world, did not exploit it, politically or commercially. After all, Columbus's discovery of America led to exploitation and then development by Europeans which, 500 years later, made the United States more powerful than China had ever been.
Mas Geoff Wade da National University of Singapore escreveu uma refutação ao artigo do The Economist que, a propósito da forma como este termina, diz o seguinte:
First there is acceptance that the "Chinese had "discovered the extent of the world" and secondly there is the implicit claim that Chinese culture is somehow more beneficent and humane than the cultures of the Europeans who exploited the world. This mirrors precisely the rhetoric of the Chinese foreign ministry in respect of the voyages of Zheng He and is an integral part of contemporary PRC foreign policy. Economist readers deserve better.
É que este assunto não é apenas uma questão científica como se pode ver, mas também política.
publicado por Rui Oliveira às 23:03
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