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Sexta-feira, 25 de Novembro de 2005
Multiculturalismos...
Que o multiculturalismo e o politicamente correcto têm efeitos perversos é bem sabido. Entre os estes efeitos, está o totalitarismo, pois querem impor a todos, em todos os aspectos da vida, um "pensamento único" que não pode ser nunca posto em causa.

Reza a cartilha multiculturalista e politicamente correcta que se respeitar todas as culturas e que em caso algum se pode ofendê-las (é claro que para esta gente há uma notável execepção: a civilização ocidental, o cristianismo e o homem branco podem ser denegridos à vontade).

Esta cartilha multiculturalista é perfeitamente castradora como se pode ver, na Inglaterra, com o caso de uma peça de Christopher Marlowe, dramaturgo inglês do período isabelino, que viu uma das suas peças, Tamburlaine the Great, modificada de modo a não ofender sensibilidades muçulmanas, tal como é relatado no Times Online:
T WAS the surprise hit of the autumn season, selling out for its entire run and inspiring rave reviews. But now the producers of Tamburlaine the Great have come under fire for censoring Christopher Marlowe’s 1580s masterpiece to avoid upsetting Muslims.

Audiences at the Barbican in London did not see the Koran being burnt, as Marlowe intended, because David Farr, who directed and adapted the classic play, feared that it would inflame passions in the light of the London bombings.

Simon Reade, artistic director of the Bristol Old Vic, said that if they had not altered the original it “would have unnecessarily raised the hackles of a significant proportion of one of the world’s great religions”.
Notem a cobardia da frase que coloquei em destaque. Normalmente os artistas, e muito bem, não têm estes pruridos quando se trata de criticar o cristianismo. Porque será? É que o cristianismo, juntando todas as igrejas e seitas cristãs têm mais fiéis do que o islamismo em todo o mundo. No entanto, isso não impede os artistas de o criticarem. Ou será que este director teve medo de sofrer o mesmo destino do Theo van Gogh? Se foi o caso, então as sociedades ocidentais estão a deixar-se sequestrar por uma minoria de islamistas radicais. E isso é preocupante. Mas eu não acredito que tenha sido só isso. Antes de avançar, só mais um exemplo:
Members of the audience also reported that key references to Muhammad had been dropped, particularly in the passage where Tamburlaine says that he is “not worthy to be worshipped”. In the original Marlowe writes that Muhammad “remains in hell”.
Será lícito alterar obras antigas para que estas se conformem com os cânones em vigor. É claro que não. Deixem-me dar um exemplo mais português. Os alunos do 9.º ano estudam o Auto da Barca do Inferno de Gil Vicente e isto há já vários anos - aliás o Gil Vicente já fazia parte do programa do 9.º ano quando eu por lá passei (e eu andei no primeiro 9.º ano de que há memória, como aliás já tinha acontecido com o 7.º, 8º, 10.º etc...)- e neste auto aparece uma personagem referenciada, apenas e só como JUDEU.

Ora esta personagem é apresentada de modo altamente desfavorável, nem sequer faz o percurso da maioria das outras personagem (barca do inferno - barca do paraíso - barca do inferno). Isto é, o JUDEU nem sequer é digno de tentar a entrada no Paraíso. E ainda por cima nem o diabo o quer na sua barca e manda-o para um barco que vai a reboque. Digamos que é uma cena de anti-semitismo "avant la lettre" (é preciso notar que o anti-semitismo enquanto conceito nasceu apenas no séc. XIX; mas a perseguição aos judeus é bem antiga).

Deveríamos eliminar ou reformular esta passagem? É lógico que não. Há muitas maneira de falar nisto numa sala de aulas, por exemplo. Uma obra é fruto de uma época, de um contexto, de uma sociedade. Tentar adaptá-las aos tempos modernos em nome de evitar a ofensa a um determinado grupo é absolutamente ridículo.

De qualquer modo o que se nota aqui é uma situação de "dois pesos e duas medidas". Normalmente quando se trata do cristianismo, seja a "Última tentação de Cristo", seja o "Je vous salue Marie", ou a "Jerry Spring Opera" os artistas não têm esta vontade de não ofender uma das maiores religiões do mundo.

Por minha parte, acho que os artistas têm liberdade para dizer o que quiserem. Eu reservo-mo no direito de gostar ou não ou, então, nems equer ir ver porque, pura e simplesmente isso não me interessa. Nunca me verão é em manifestações para impedir uma peça ou a exibição de um filme.
publicado por Rui Oliveira às 01:09
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2 comentários:
De Karloos a 26 de Novembro de 2005 às 01:35
Concordo com quase tudo o que diz. Mas o multiculturalismo não significa que as minorias estejam imunes à crítica. Antes pelo contrário, significa que todas as culturas devem estar igualmente exposta à crítica e devem ser respeitadas da mesma maneira, com os mesmos deveres e direitos.
De R Oliveira a 26 de Novembro de 2005 às 10:57
O problema não é o "multiculturalismo" enquanto pluralidade de culturas. Penso que nesse caso estamos todos de acordo que é muito bom conhecermos aqueles e aquilo que é diferente de nós.
O problema é que aqueles que falam em nome do multiculturalismo não aceitam qualquer crítica às culturas minoritárias ou estão sempre a ver ofensas a essas mesmas cultura...
Veja o caso da Inglaterra. Vários "town councils" não querem chamar época de Natal à época que aí vem, porque temem que os não cristão possam ficar ofendidos.
E depois vemos os líderes hindus, muçulmanos ou judeus, por exemplo, de algumas dessas cidades a dizer que ninguém lhes peguntou nada e que por eles não ficavam nada ofendidos pelo Natal.
Quando o multiculturalismo se torna religião é que é mau...

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