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Terça-feira, 3 de Maio de 2005
Variações...
Ao ler esta notícia pareceu-me notar algo estranho. É claro que o estranho estava no título:

Canal Plus acusado de espionar trabalhadores

O estranho, como é bom de ver, é o verbo "espionar", em vez do muito mais usual "espiar". Não é que o verbo não exista em português, existe sim. Aliás, em francês, também temos "épier" e "espionner" com sentidos que se interpenetram, mas não totalmente coincidentes.

De qualquer modo, penso que quem traduziu a notícia (a redigiu a partir de material francês), traduziu e pronto, não pensou mais no assunto. O problema, se é que o é, é o estranhamento que provocará em muita gente, que achará o verbo, pelo menos, um pouco esquisito.

E porque se dá esta sensação de estranhamento? Apenas porque o verbo "espionar" ocorre, no português moderno (e provavelmente também no antigo) muito menos vezes do que o verbo "espiar". Sentimos isso intuitivamente, mas, também de um certo modo, podemos tentar confirmar tal intuição com factos. Para isso, podemos utilizar, por exemplo, o corpus CETEMPúblico que dispõe de cerca de 190 milhões de palavras de edições do Público (entre 1991 e 1998).

Numa rápida consulta, "espiar" teve 161 ocorrências, enquanto "espionar" teve apenas 5 ocorrências. Para confirmar estes resultados procurei outras formas verbais dos dois verbos e os resultados foram os seguintes (em ocorrências):

espiou - 17
espionou - 1

espiado - 35
espionado - 1

espiava - 20
espionava - 0

Aliás a própria notícia que eu refiro, não volta a utilizar o verbo em questão, utilizando formas verbais do verbo "espiar". "Espionar" só mesmo no título.

Ora lendo as várias notícias que saíram sobre o assunto nos media franceses (e que devem ter sido utilizados para fazer anotícia portuguesa) vejo que o verbo "espionner" (nas suas diversas formas) foi o mais utilizado, seguido do verbo "surveiller".

Apesar de alguns puristas acharem que "espionar" é um galicismo; o facto é que existe em português, está dicionarizado e foi (e será) utilizado por escritores. Penso que é perfeitamente legítima a sua utilização. Mas, neste caso em particular, tratou-se apenas de uma tradução para o "equivalente" mais próximo, não uma escolha deliberada e motivada para um qualquer fim.

Logicamente que há muitos conceitos de tradução, nem toda a gente entende o mesmo quando se fala de tradução. Não faz sentido recuarmos aqui à célebre dicotomia de tradução "palavra a palavra" ou tradução do "sentido", já discutida, embora em moldes e contextos completamente diferentes por Cícero e São Jerónimo, mas, apesar disso, quando se faz tradução tem que se fazer escolhas. Para mim, no caso da comunicação social, essas escolhas devem ser influenciadas por a finalidade que se traduz. Pode argumentar-se que a notícia não é uma tradução, mas redigida a partir de textos em língua estrangeira. Mas traduzir também é redigir. Quem pensar que traduzir é uma mera transcrição de um texto enunciado/escrito num determinado código linguístico (língua de partida) para um outro código linguístico (língua de chegada) não percebe nada de tradução.

Por isso me apeteceu falar disto agora. Nenhuma notícia é pequena de mais ou demasiado insignificante para que não se tenha o máximo de atenção ao que se faz. Neste caso, o sentido não é alterado. Mas, outras escolhas deste tipo, devido a proximidades de formas, por exemplo, por vezes alteram significativamente o sentido. Por pequenas coisas como estas é que eu estou, normalmente, de pé atrás em relação a muita coisa que se lê/vê nas páginas/ecrãs das secções "internacional/mundo, etc..." dos media portugueses.

Há muita gente que, embora possa ter qualidade, tem muito pouca experiência e está a fazer notícias nos vários órgãos de comunicação. Por outro lado, muitos jornalistas sobrestimam as suas capacidades linguísticas e já vi alguns espalharem-se ao comprido em determinadas situações.

É certo que já não me devia incomodar com isto, tantos são os exemplos, mas, enfim, hoje apeteceu-me falar.
publicado por Rui Oliveira às 14:24
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1 comentário:
De Anónimo a 3 de Maio de 2005 às 16:56
E falou mui bem.
Mas o francês terá ido buscar o épier e épie ao italiano, spia, ocorrendo já o verbo no séc. XVI, tal como espião, espion, do italiano spione, ocorria também no séc. XVIII, em português, claro está.
Se a intenção da notícia «fora» causar estranhamento, perceber-se-ia a opção, de contrário, simples «maria vai com as outras», i.e., a lei do menor esforço, para dizer as coisas sem ferir ninguém.
http://apor.blogspot.com
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